Experiência espacial
A experiência do visitante transforma-se quase num ritual. Responde assim à definição que o dicionário da Real Academia Espanhola dá do termo templo: "Edifício ou lugar destinado pública e exclusivamente a um culto". Como se conclui da leitura do célebre ensaio Elogio da Sombra, de Junichiro Tanizaki, enquanto no Ocidente a luz é a principal ferramenta para alcançar a beleza, no Japão o essencial está no mundo das sombras.
Nesta seleção de projetos de arquitetura, a iluminação serve de guia no percurso pelo espaço e comunica o seu significado. Na igreja de Fernando Menis, a luz natural entra através das fraturas de betão para criar um percurso luminoso desenhado de perto em função dos diferentes momentos litúrgicos que se celebram neste templo. No cinema-auditório do Reina Sofía, a iluminação indireta foi desenhada de forma controlada para gerar uma atmosfera teatral que, juntamente com as peças geométricas resgatadas do desenho original, focam o olhar e convidam à concentração do espetador. Em ambos os exemplos, a luz acompanha a experiência do utilizador.
Ferramenta intangível
No caso da Biblioteca dos Mil Sóis, através de refletores e clarabóias, capta e redireciona a luz solar para o interior apesar da sombra do entorno. Poder-se-ia dizer que faz da necessidade virtude. Na central DH Ecoenergias, a envolvente translúcida que filtra a luz transforma em beleza um edifício industrial e eleva-o a templo onde o culto é a procura de um futuro de energias mais limpas. Foi, aliás, classificado como "catedral da energia".
No Science Island Museum (Mokslo Sala) o disco refletor funciona como um marco luminoso na cidade. Todos os projetos exploram a luz como ferramenta arquitetónica que serve para construir atmosferas e experiências imersivas e cria um significado para convidar a viver o aqui e o agora num mundo em que, por vezes, é difícil fixar o olhar.

Caminho de luz
O projeto da Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas, assinado pelo arquiteto Fernando Menis e incluído na coleção do MoMA de Nova Iorque, situa-se em La Laguna (Tenerife) e foi concluído em 2024. O complexo é formado por quatro módulos independentes sobre uma parcela de 1.590 metros quadrados. A construção destaca-se pelo uso de dois materiais principais: betão armado e pedra vulcânica local, o que Menis designa por "inovação low tech". Inspirado na geologia vulcânica da ilha, o edifício apresenta estreitas fraturas por onde se filtra a luz natural, criando "um conjunto austero e descarnado". A luz percorre o interior e enfatiza os sacramentos cristãos, desde a cruz e o altar até ao confessionário, seguindo o percurso do sol.

Luzes, ação!
O projeto de transformação do antigo auditório, obra de BACH / Jaume Bach, Anna & Eugeni Bach, adapta o espaço ao seu novo uso mantendo a ideia original de "objetos geométricos". Sob uma grande abóbada, concebida como "um céu estrelado", organizam-se as atividades. Para isso, a cor e a luz foram empregadas como estratégia para criar um ambiente teatral. A abóbada pintada de azul — cuja tonalidade muda consoante as luzes estejam apagadas ou acesas — evoca o céu noturno, enquanto a ideia de recuperar o vermelho clássico de cinemas e teatros está ligada a referências dos arquitetos como o Cinema Skandia, de Erik Gunnar Asplund, e o Cine Doré. Entre ambos os tons, os nichos das antigas janelas incorporam superfícies absorventes que atuam como pontos de luz ténue que realçam as aberturas e ampliam a sensação de estar no exterior. Assim, a iluminação indireta e controlada constrói uma atmosfera cénica que dirige o olhar e favorece a concentração do espetador.

Culto ao sol
Esta biblioteca pública Biblioteca dos Mil Sóis (Biblioteca Municipal de Madrid Francisco Umbral, Prémio COAM à obra construída na Comunidade de Madrid) responde a uma reivindicação histórica do bairro de Butarque. É a primeira que a Câmara Municipal de Madrid constrói em Villaverde e o primeiro edifício municipal com a certificação VERDE do GBCe. O seu nome deve-se ao facto de que, exceto no verão, um bloco de grande altura situado a sul deixa em sombra a parcela onde se ergue. Por isso, o arquiteto, Miguel Ángel Díaz Camacho, propôs construir vários dispositivos refletores de luz artificial: que são os mil sóis. "A radiação solar gira sobre a cobertura e incide sobre uma série de clarabóias, lâminas verticais na fachada noroeste, gelosias em pátios, o reverso das folhas das árvores… elementos dispostos para redirecionar a luz solar para o reverso branco da cobertura e a armação estrutural em madeira", indica na memória.
Desta forma, a luz natural filtra-se e produz uma "atmosfera de luz indireta, quente e vibrante — sem sombras — para o interior. Ao anoitecer, a biblioteca transforma-se numa lâmpada do espaço público exterior, cumprindo uma das exigências da cidadania", acrescenta. E conclui: "o cheiro a madeira, a luz refletida, a excelente acústica e a calidez material criam uma atmosfera densa e luminosa muito apropriada para o estudo ou a introspeção".

Catedral da energia
A central DH Ecoenergy em Palência é uma infraestrutura energética projetada pelos arquitetos Fernando Rodríguez e Pablo Oriol à frente do estúdio FRPO, vencedor ex aequo do Prémio FAD de Arquitetura 2024. Ocupa 2.400 metros quadrados e constitui a central da rede de District Heating, que transporta água quente produzida por energias renováveis pelo subsolo das ruas de Palência. A construção pretende marcar o passo do que serão no futuro este tipo de instalações nas cidades frias de Espanha. Para além da sua função técnica, o edifício assume uma clara vocação pedagógica: mostrar de forma transparente o processo energético e transformar a arquitetura em símbolo da mudança de modelo.
O edifício é composto por uma cuba de betão pesado e uma lanterna leve de aço e plástico reciclável. "A base serve de suporte para toda a maquinaria e estabelece ligações terrestres com o exterior e com o silo de biomassa situado debaixo da terra. No interior, a base de betão conta com uma cobertura que se converte num percurso perimetral que rodeia toda a maquinaria". A lanterna é simbólica e transforma a construção numa "catedral da energia". Esta envolvente translúcida filtra a luz natural e converte o interior num espaço visível a partir do exterior, transformando a central numa espécie de farol urbano que torna tangível a nova energia limpa.
Um marco luminoso
O SMAR Architecture Studio, fundado por Fernando Jerez e Belén Pérez de Juan, assina o projeto Science Island Museum (Mokslo Sala), localizado na Ilha Nemunas de Kaunas (Lituânia). Vencedor do Primeiro Prémio COAM e finalista nos EUMIES Awards, este museu de 15.000 metros quadrados destaca-se pela sua integração orgânica no terreno para criar uma relação fluida entre arquitetura, natureza e cidade. Uma das marcas de identidade que, de certa forma, atua como sinal no ambiente deste edifício ecológico e cívico é o disco superior inclinado situado sobre a estrutura que funciona como elemento refletor. Além disso, graças às qualidades do material permite refletir a luz natural para o interior do edifício durante o dia e emitir luz artificial à noite.
Redação por Beatriz Fabián