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Turismo sustentável: um paradoxo possível?

5 min de leitura

A facilidade de viajar, o acesso a férias pagas e o low cost contribuíram para democratizar o turismo, mas também conduziram à massificação de alguns destinos. Perante isto, o mantra do turismo sustentável surge como resposta consciente e reparadora.

Sustentabilidade e turismo: um binómio em tensão

O turismo é hoje um fenómeno global dual: capaz de gerar enormes benefícios económicos e sociais — contribuindo com 10% do PIB mundial —, mas também de produzir graves externalidades por ser um grande predador de recursos que acaba por homogeneizar paisagens, pondo em causa a diversidade e a autenticidade cultural e, em última instância, comprometendo a resiliência de sociedades e ecossistemas, em muitos países recetores já muito frágeis.

Perante este cenário, o turismo sustentável procura superar a dicotomia entre bem-estar humano e degradação ambiental, graças a um alinhamento real com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Esta nova abordagem, dotada de uma sólida componente ambiental, social e ética, procura um equilíbrio entre as necessidades de visitantes e anfitriões, a partir do respeito absoluto pelos valores, pela idiossincrasia e pelo património natural e cultural autóctones.

Os ODS devem ser um pilar do turismo sustentável, que exige o compromisso sectorial e das administrações.
Os ODS devem ser um pilar do turismo sustentável, que exige o compromisso sectorial e das administrações.

Ser sustentável tornou-se um atrativo na hora de escolher destino e, por isso, muitos países — mesmo aqueles que já combinavam diferentes interesses turísticos, como o cultural, o desportivo, o religioso ou o gastronómico — estão a apostar em reorientar a sua estratégia para um turismo mais responsável.

A aplicação “Meet the locals” facilita o contacto com a população local, melhorando a convivência entre o turista e o residente em Gotemburgo.
A aplicação “Meet the locals” facilita o contacto com a população local, melhorando a convivência entre o turista e o residente em Gotemburgo.

Do turista ao viajante: novas formas de habitar

Está a ocorrer uma mudança progressiva de mentalidade: do conceito de turista para o de viajante, que responde a uma procura de "porosidade" e autenticidade, fugindo de cenários artificiais e da sobre-exposição.

A diferença fundamental está no olhar: enquanto o turista consome um destino de forma externa, o viajante habita-o, concentrando-se em ampliar a compreensão do lugar através de uma interação respeitosa tanto das dinâmicas humanas como dos ciclos naturais do território.

Sob esta premissa, o viajante procura captar o ‘genius loci’, a essência paisagística e humana — ainda que em constante mutação —, e a experiência vai-se modulando consoante os códigos do território (climáticos, ambientais, costumes e outros).

Perante esta procura social, o turismo e a hospitality reinventam-se ao adotar soluções e ao oferecer alternativas para aproximar mais a ideia da viagem, de "habitar". Entre estas, destacam-se um catálogo de estratégias baseadas no destino, na oferta e na procura, e na ética e governança:

Destino protegido e inalterado: 

 

  • Seleção cuidadosa da localização hoteleira.

  • Descentralização de visitantes, regulação de fluxos e desestacionalização.

  • Descarbonização da mobilidade de acesso e interna.

  • Renaturalização e proteção do ecossistema natural e da paisagem.

  • Preservação do ritmo biológico, boa qualidade do ar, luz natural e silêncio.

  • Salvaguarda da integridade e do património material e imaterial.

  • Compromisso público e privado com os ODS.

  • Certificação do destino.

 

Oferta e procura responsáveis: 

 

  • Arquitetura tradicional, de raiz vernácula e com baixo impacto ambiental, visual e sonoro.

  • Poupança, eficiência e autossuficiência energética e hídrica.

  • Regeneração do meio envolvente.

  • Vegetação endémica e respeito pela biodiversidade nativa.

  • Alimentos locais, sazonais e biológicos.

  • Digitalização, produtos com baixo teor de carbono e recicláveis.

  • Consumo consciente, minimização de resíduos e circularidade.

  • Sensibilidade e consciência ambiental.

  • Turismo com valores e interesse genuíno pelo destino.

  • Adequação ao ritmo e aos códigos do lugar e respeito pela singularidade.

  • Interesse em interpretar o meio envolvente e interação ética e amável.

  • Cálculo do impacto e certificação de estabelecimentos, serviços e produtos.

 

Ética e governança: 

 

  • Apoio à economia local.

  • Capacitação e emprego da comunidade.

  • Empoderamento e autogestão.

  • Transparência e justa distribuição da riqueza gerada.

  • Desenvolvimento equilibrado, bem-estar e progresso local.


    O guia virtual FeelFlorence informa turistas e residentes sobre a melhor forma de explorar a cidade, recomendando locais originais e alternativos e evitando os monumentos e atrações mais concorridos.
    O guia virtual FeelFlorence informa turistas e residentes sobre a melhor forma de explorar a cidade, recomendando locais originais e alternativos e evitando os monumentos e atrações mais concorridos.

Casos de sucesso: referências de transformação

A partir do sector hoteleiro, turístico e da sociedade civil promovem-se diferentes iniciativas inspiradoras e replicáveis que reduzem a pegada ambiental e harmonizam com o meio recetor:

  • Descarbonização da mobilidade: em Schiermonnikoog (Países Baixos) respira-se um ambiente sem fumo nem ruído, já que apenas é permitida a circulação de bicicleta ou veículos elétricos.

  • Renaturalização: a associação Rewilding Europe recupera processos naturais que, ao mesmo tempo, dinamizam o território. Além disso, organiza experiências turísticas que trazem rendimento às comunidades locais e reconectam o visitante com a natureza.

  • A reintrodução de vida vegetal e animal autóctone contribui para recuperar ecossistemas em zonas degradadas. www.rewildingeurope.com
    A reintrodução de vida vegetal e animal autóctone contribui para recuperar ecossistemas em zonas degradadas. www.rewildingeurope.com

  • Circularidade: a indústria hoteleira de Maiorca desenvolveu a plataforma baseada em blockchain FINHAVA para rastrear os resíduos orgânicos e transformá-los em composto agrícola.

  • Transparência: o índice Ripple Score avalia a quantidade de dinheiro dos serviços turísticos contratados que fica na região visitada, devolvendo ao viajante a fiabilidade dos serviços contratados.

  • Apoio à economia local: a aliança dos sectores agrícola e artesanal em Lika (Croácia) permitiu criar um selo de qualidade regional para prestigiar e comercializar alimentos, bebidas e souvenirs autênticos.

O artesanato e os produtos gastronómicos ampliam as oportunidades de emprego e melhoram a qualidade de vida; constituem um meio de subsistência e ajudam a fixar a população rural.
O artesanato e os produtos gastronómicos ampliam as oportunidades de emprego e melhoram a qualidade de vida; constituem um meio de subsistência e ajudam a fixar a população rural.

Para um turismo com valores, amável e sustentável

A indústria turística enfrenta hoje o desafio inadiável de evoluir de um modelo extrativista para um paradigma restaurativo de impacto positivo. Neste processo de transformação, as obrigações verdes e os empréstimos ligados a objetivos ambientais, sociais e de governança (ASG) consolidam-se como incentivos financeiros chave para mobilizar a mudança.

Para além do financiamento, esta transição exige deslocar o foco do turista para a lógica própria do destino. A boa gestão é respeitosa e ajusta-se à capacidade de carga do território, priorizando o equilíbrio sistémico, o cuidado do planeta, a equidade social e a regeneração como eixos estruturantes.

Como consequência desta nova visão, a sustentabilidade deixa de ser um extra para se tornar um atributo essencial de qualidade e competitividade. No entanto, para que esta abordagem proativa seja efetiva, deve ser integral e multiagente, alinhando-se estritamente com os ODS e com a urgência global de reduzir emissões face à crise climática.

 

Texto de Sònia Roura Valls