Voltar à lista

Iluminação natural nos espaços de Gaudí

4 min de leitura

Quando se aproxima o centenário da sua morte, Antoni Gaudí continua a ser uma referência na integração de arquitetura, natureza e luz.

Caracterizada por formas sinuosas, inspiradas na natureza, e por uma combinação de figuras geométricas como o paraboloide hiperbólico, o hiperboloide, a helicoide ou o conoide, que dão lugar a estruturas quase impossíveis, a arquitetura de Antoni Gaudí é além disso sinónimo de religião, simbolismo e luz. Uma luz que também inspira o trabalho da Simon, de onde, agora que se aproximam os 100 anos da morte do máximo expoente do modernismo catalão, queremos homenagear a trajetória de um arquiteto que continua a surpreender pelo seu impressionante legado.

Iluminação natural nos espaços de Gaudí

Através da relação com a luz daquele que muitos conhecem como ‘Arquiteto de Deus', como um princípio compositivo, onde a dimensão simbólica e emocional desempenham um papel fundamental, adentramos a obra de um mestre dotado de uma forte capacidade criativa, que concebia cada projeto a partir de uma abordagem integral, onde a arquitetura coexiste com outras disciplinas artísticas, como a escultura, a cerâmica, a forja, a carpintaria ou a vitralaria. Lugares escultóricos e mágicos, cheios de contrastes, que Gaudí soube inundar de uma luz mediterrânica que ele considerava perfeita.

Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_1
Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_1


Como mais um elemento arquitetónico, a luz integra-se na arquitetura de Gaudí desde os seus primeiros esboços, através de recursos que também integram a cor e a forma, permitindo que esta transcenda o seu caráter funcional para se mostrar como um elemento espiritual. Pátios como o da Casa Batlló, onde azulejos em diferentes tons de azul geram um característico efeito degradé, ou os que atravessam La Pedrera (Casa Milà) para maximizar a iluminação e ventilação naturais; vitrais que criam efeitos dinâmicos e transformam a luz num elemento vivo; ou impressionantes superfícies esculpidas como as da Sagrada Família, que conferem uma dimensão simbólica e emocional, semelhante à das catedrais góticas.

A luz como princípio compositivo

Para otimizar a entrada de luz natural e criar efeitos mutáveis ao longo do dia, Gaudí desenhou os seus edifícios considerando o movimento solar, como seres vivos em constante movimento. Espaços profundamente ligados à natureza e à passagem das estações, como a Sagrada Família, onde os vitrais frios da manhã contrastam com os quentes do entardecer e incorporam um aceno ao processo do nascimento e da morte; ou a Torre Bellesguard, onde as paredes brancas funcionam como pano de fundo dos reflexos de vidros de cores cambiantes consoante a posição do sol.

Cor, forma e transparência

Gaudí criou técnicas inovadoras como o ‘trencadís', que utiliza fragmentos partidos de cerâmica ou vidro para criar superfícies coloridas e texturizadas, como as da Casa Batlló; ou um sistema de tricromia com quatro camadas de vidro sobrepostas (três coloridas e uma transparente), que conferem volume e degradação da cor nos vitrais. Um cuidado tratamento da matéria, em que a morfologia desempenha também um papel-chave e dá lugar a projetos como a Cripta da Colònia Güell, com uma luz semelhante à que se infiltra entre as sombras das árvores de um bosque e que funciona como um grande relógio solar.

Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_2
Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_2

A dimensão simbólica e emocional da luz

A espiritualidade e a profunda conexão com o divino encontram o seu máximo expoente na Sagrada Família, concebida pelo seu criador como uma grande bíblia construída em pedra e inspirada em uma natureza que para Gaudí representa a expressão mais pura de Deus. Como nas catedrais góticas, onde a luz era considerada uma manifestação da presença divina, aqui os vitrais permitem explicar uma mensagem simbólica através da luz e da cor, mergulhando os visitantes numa atmosfera mágica onde, como afirmava o próprio arquiteto, “a arquitetura é a ordenação da luz; a escultura é o jogo da luz”.

Para um uso consciente da luz

A forma de entender e tratar a luz de Gaudí encontra continuidade no papel cada vez mais importante que este recurso desempenha na arquitetura e no design. Duas disciplinas que apostam na reconexão com o meio natural e numa abordagem centrada na biofilia, no bem-estar, na eficiência e na sustentabilidade, em que aspetos como a orientação, a integração de janelas e clarabóias eficientes, ou o uso de materiais que maximizem a entrada de luz, são fundamentais. O facto de o grande mestre do modernismo catalão ter conseguido dotar os seus edifícios de uma grande luminosidade sem grandes avanços tecnológicos, através de materiais, volumes e cores, demonstra que uma arquitetura respeitosa para com o planeta e alinhada com o meio natural é possível.

Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_3
Iluminação natural nos espaços de Gaudí_1500_844_3

Texto de Laura Novo